Vento Perdido foi escrito num dia atípico. Eu havia acordado de bom humor para ir trabalhar e comecei a pensar no texto durante minha pedalada para o trabalho. Chegando em minha mesa eu tinha 90% do texto pronto e só fiz digitar. É algo que apesar da rapidez com que foi concebido, soou importante para mim. 

 

Aconselho colocar bons fones de ouvido e ler o texto com o acompanhamento musical abaixo. Espero que curta!

 

     Não era o sangue em minhas mãos, nem a imobilidade do meu corpo que me assustavam. Minha cabeça explodia em pensamentos e eu não sabia lidar com aquela sensação. Não conseguia fazê-la parar num ponto fixo e estático. Era como se meu cérebro trabalhasse em alta velocidade e fluísse rapidamente como um rio após uma grande tempestade. O volume de pensamentos era tão grande que transbordava pelas margens da minha mente e não permitia que eu assimilasse tudo de forma eficiente.

    Após a cheia do rio, ele passou a correr em diversas veias diferentes e não pude acompanhar todos os pensamentos que fugiam em direções diferentes, diferentes da minha direção. Não tive capacidade nem alcance para conter essas veias. Sentia minha pele se aquecendo. Primeiro, como um dia ensolarado após o inverno. Depois, como um dia muito quente no meio do verão. E por último, como o momento ápice da explosão de lava proveniente da erupção de um vulcão.   

    O momento entrópico de todas as partes de meu corpo atingiu um patamar inacreditável até para mim mesmo. Terras vulcânicas em profunda erupção envolta por rios transbordando e transbordando cada vez mais, até que começou a escorrer pelos meus olhos. Dois braços de rios que desciam por meu rosto e abriam um caminho límpido em meio a imundice da fuligem que poderia ser proveniente da erupção vulcânica de meu corpo, porém, era apenas resquício de guerra.

    Após o transbordar do rio, veio o terremoto. Tudo tremia em meus espasmos inconsoláveis. O terremoto jogava meu peito arfante para frente e para trás, causando leves desequilíbrios. O terremoto estava aumentando, se aproximando do momento de rompimento causado pelo choque de placas tectônicas, choque de emoções, emoções contraditórias e ao mesmo tempo coerentes. Não tinha como evitar o que estava por vir.

    Junto do choro veio o eco. Eco vindo do vazio do meu coração naquele momento. Vazio ocasionado pela tristeza que me abatia. Eco que poderia ser ambíguo pois, era o eco de minha própria voz gritando descontroladamente sem saber o que pronunciar. O vazio, apesar de ser empurrado pela minha voz, não me deixava. A tristeza, vinda dos confins do outono nebuloso do meu coração, crescia exponencialmente conforme eu ainda tentava controlar os braços de rio que desciam pelo terreno vulcânico do meu rosto.

    Arrogância do meu ser, pensar que poderia controlar tamanha balbúrdia que me abatia. Arrogância pensar que seria forte o bastante para suportar tamanha dor. Não pelos ferimentos que estavam à minha vista. Não pelos ossos partidos do meu corpo. E sim pela perda. Perda destruidora e devastadora. Eu sabia o que tinha perdido. Eu sabia que não poderia recuperar. Era como tentar captar o sol à meia noite. Como tentar captar o vento perdido em uma câmara lacrada. Como subir em um banco tentando alcançar a lua. Era tentar trazer de volta a vida, um ser morto.

 

  • CRÉDITOS DA TRILHA SONORA:

– Music Deep Breath by Mattia Vlad Morleo at Jamendo

2 Replies to “O Vento Perdido”

  1. Parabéns pelo texto!

    Apenas no final do texto consegui criar uma cena com o que interpretei de cada parte. Imaginei um homem em batalha, sendo atingido violentamente, realizando suas últimas considerações sobre a vida e quele momento.
    Muito legal a maneira com que escreveu!

    Abraço!

    1. Olá! Muito obrigado! É sempre importante termos feedback dos nossos ouvintes e leitores. Principalmente sendo um comentário do ouvinte número 01 do Química Literária!

      Abraços

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